Lion

28 de março de 2018

Assisti, há mais ou menos um mês, Lion, um filme do diretor Garth Davis com Dev Patel (do famoso Quem quer ser um milionário?) como protagonista. A história do longa-metragem se passa, em um vem e vai, na Índia e na Austrália. Não vou contar muitos detalhes para não estragar o filme para quem ainda não o assistiu. De maneira resumida, o que acontece é o seguinte: Saroo, uma criança de mais ou menos 5 anos, insiste em acompanhar seu irmão adolescente, Guddu, em sua ida noturna à estação de trem para conseguir trabalho, um bico, para ajudar sua miserável mãe e família; o pai não existe. Guddu sendo o mais velho – e ainda assim muito jovem – deve zelar por sua irmã e irmão pequenos enquanto sua mãe trabalha em um subemprego. Contudo, como dito anteriormente, ele decide buscar trabalho na estação de trem com o intuito de engrossar um pouco o orçamento irrisório da família. Ao que tudo indica é um habito do irmão mais velho ir à estação de trem com este intuito, assim como a insistência do irmãozinho em ser levado junto. Desta vez Guddu cede e leva o pequeno com ele. Alguns desencontros ocorrem e Saroo se separa de seu irmão mais velho, se perde e acaba 1600 km longe de sua casa.

Pois é… Imagina. É de tremer o queixo, não é? Aposto que muitos têm a memória daquele dia em que, se sentindo muito confiante e independente aos 5 anos de idade, deu aquela viajada olhando os potes de danone na prateleira do supermercado, sem se preocupar, pois, você era uma criança que ainda não sabia do tamanho e o caos do mundo, e de repente “cade minha mãe?”. Aí você descobriu que aqueles metros quadrados do supermercado poderiam se alargar muito e serem um labirinto de pessoas e coisas. Um possível terror, certo? Perder a referência, ainda que momentaneamente, daquele que supomos poder nos proteger e nos levar de volta para casa, de volta ao nosso prosaico próprio, é ser pego por uma solidão consistente e abismal. A ideia de não ser reconhecido por ninguém traz a angústia de não reconhecer a si próprio, de certo modo. Isso pode soar exagero para você, adulto que lê essas minhas palavras. Contudo, isso que chamamos de eu é constituído no outro e na relação com o outro, em tempos primordiais. O eu nunca é acabado, ou melhor, totalmente autônomo e consistente o bastante para não ser abalado pelos movimentos do outro. Falo da relação imaginária, especular, que permeia as relações humanas, possibilitando junção e causando disjunção. Em outras palavras, aquilo que te faz sentir bem-vindo, aceito, seguro é, não raro, suposição de ser igual ao outro; que é também aquilo que lhe causa o sentimento de ameaça, pois o outro é por demais diferente e coloca em risco a ilusão de integridade, identidade do eu. Um exemplo por demais banal é a rivalidade entre torcedores de times de futebol que acaba em situações de brutal e estúpida violência.

Porém, o que de fato está por detrás desse afeto ameaçador diante deste outro tão diferente é que talvez ele não seja tão diferente de você e, na verdade, aponte certas características suas, por assim dizer, que são insuportáveis. O que realmente incomoda é aquele que, a despeito de diferente, é mais parecido do que diferente. Enfim, não vou tratar disso aqui.

Seguindo!

Agora, imagine… 1600 km. Na Índia, um país superpovoado… O pequeno Saroo acaba em uma região do país em que não falam sua língua. Ele não reconhece nada: o lugar, as pessoas e a língua. Ele é invisível e inaudível. Ninguém entende o que aquela criança fala e o que quer; ninguém tem interesse o bastante por ele. Infelizmente, não é raro o quanto se banaliza em muitas sociedades o fato de existirem crianças muito novas perambulando por aí por conta própria; desassistidas. Só esse drama social retratado no filme renderia uma grande discussão; mas, não é disso que vou tratar tampouco.

Continuando meu “resumo” do enredo. Mais uma porção de desventuras ocorrem e por fim Saroo é adotado por um casal australiano. Por 25 anos tudo corre bem na australiana vida que passa a ter. Ele está saindo da casa dos pais adotivos para estudar hotelaria (acho que é isso); na universidade ele entre em contato com estudantes de origem indiana e criados por pais indianos (isso faz toda a diferença, apontarei o porquê). Durante um almoço perguntam a ele de onde ele é, Saroo conta que fora adotado e sua cidade de origem seria Calcutá (cidade onde se localizava o orfanato); algumas piadas são feitas a respeito do rapaz não conhecer muito dos hábitos indianos à mesa. Ele se levanta e vai até a cozinha fazer alguma coisa que eu francamente não me lembro. Na cozinha ele encontra um tipo de quitute indiano (jalebis) em uma bandeja. Ao se deparar com o que estava na bandeja ele se depara também com uma lembrança esquecida, desativada até então, que o deixa atordoado. Lhe vem a cena ele e seu irmão em uma feira na sua cidade natal: O irmão lhe pergunta — com a intenção de diverti-lo com a possibilidade de sonhar em realizar desejos — o que ele quer comer. Saroo fala que gostaria de comer jalebis que estão sendo feitos na barraquinha ao lado da qual eles estão negociando um pouco de leite. Guddu responde “um dia comprarei jalebis”, “compraremos a loja inteira” diz Saroo, e Gudu “com certeza”. Ele, Saroo, não está em Calcutá nesta remota lembrança. A memória revela algo que ele não sabia que sabia: que sua cidade natal não era aquela que ele dizia ser; aquela que era lembrada antes do reencontro com uma parte de sua biografia que estava escondida na sua memória. Ao se dar conta disso, conclui “Estou perdido”.

Um objeto, uma comida, uma palavra – jalebis – abre uma porta até então trancada, por assim dizer, um caminho esquecido pela sua consciência. A presença deste objeto, ou melhor, o reencontro com ele, é capaz de anular a barreira entre a consciência e a lembrança jogada para outro lugar; até então inacessível.

Saroo se sente perdido. Ele está diante de uma realidade incongruente com a que vivia até então; nada mais é como era, pois, tudo aquilo que era, não era bem como sua consciência concebia. A realidade perde sua consistência. Não se trata de um surto psicótico, senão, de uma situação em que a narrativa sustentada até então por Saroo para se localizar em sua própria vida, ou seja, na realidade, o que possibilita uma percepção de identidade, não mais lhe proporciona isso. E por quê? A ideia, a percepção de identidade própria, é sempre tomada por certas questões a serem respondidas; dentre muitas possibilidades penso que podemos propor as seguintes: Quem eu sou? Que não raro implica pelo menos outras duas questões: De onde vim? E para onde eu vou?

Nossa capacidade de sonhar e desejar o futuro (que é logicamente vazio, pois, ainda não é) está atrelada a capacidade de dar continuidade ao tempo passado, o presente e o por vir. O tempo é uma grande continuidade. Nós, humanos, por meio do imaginário e do simbólico, marcamos diferenças, nomeamos momentos e períodos. Essa divisão do tempo é o que permite, paradoxalmente, lhe conferir continuidade, um sentido. E essa continuidade é material para constituir a percepção de identidade, sustentar o próprio desejo e, inclusive, se localizar e tramar uma realidade.

Não podendo mais responder de onde veio, Saroo tem dificuldades de dizer quem é e, por conseguinte, não sabe pra onde ir – talvez seja melhor dizer que ele não consegue mais avançar em seus projetos, pois, sua direção agora é o passado, um passado fragmentado. Ele precisa responder para si de onde veio. O problema é que para essa empreitada ele conta com retalhos de memória: a pronúncia incerta do nome de sua cidade natal, a imagem mental de uma caixa d’água na estação em que se perdeu, um cálculo aproximado de dias que ficou no trem que o levou para muito longe… entre outras informações provenientes de pesquisas feitas com o pouco que os dados nebulosos de sua memória puderam providenciar. Saroo busca uma baleia branca em extensões infinitas para a percepção humana, em mares de vilarejos, estações de trem e lonjuras.

Diante deste enigma acerca de sua origem e toda a dificuldade, Saroo vai abandonando aos poucos o presente e o futuro, este que é feito de sonho e devaneio. Talvez o futuro seja feito do mesmo material que o passado. Sendo assim, o amanhã pouco importa se não houver ontem.

O passado não é constituído apenas de memórias, traços mnêmicos. Não são fatos gravados no cérebro como arquivos em uma nuvem online em que basta acessar quando se quer. Esquecimentos, deslocamentos e distorções operam em nosso psiquismo. Entre alguns dos motivos do porquê disso, penso (com ajuda de Freud) que seja para podermos suportar, por um lado, um montante de informações e, por outro, evitarmos o contato com conteúdos desagradáveis, desprazerosos. E para além disso ter acesso aos traços mnêmicos, como acontece com Saroo ao lembrar da cena dele e seu irmão na feira, não é em si ter acesso ao passado. Pois, que o passado é história e como toda história precisa ser contada. Ou seja, é fundamental uma narrativa que, por assim dizer, costure fragmentos, traços e retalhos em algo feito uma trama. E é exatamente isso que Saroo não consegue, não há linha para costurar esses seus retalhos. Essa linha, a meu ver, é dada em certa medida pelos outros. Aqueles outros que foram testemunhas de nossa história, alguém que também estava lá. Por exemplo: pais, irmãos, amigos de infância, vizinhos, moradores locais e tudo, e todos, que possam oferecer uma narrativa, uma linha. Uma linha do tempo.

Saroo não tem essas testemunhas de sua remota infância, dos seus primeiros 5 anos, para ajudá-lo a fazer dessas cenas invasoras algo mais apaziguador; fazer de fato o passado ser história. Sem história, para ser mais específico, sem a história de sua origem, para ele fica impossível responder quem ele é; inclusive localizar seu lugar nas suas relações com seus familiares adotivos, amigos e namorada.

O sentido da vida se dá no sentido que possamos dar ao tempo que passou, e ao tempo que inevitavelmente avança. Quem sabe, o tempo, esse tempo de que falo — interno e em continuidade com o externo — não seja uma reta, senão, um círculo?

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Mosca

21 de fevereiro de 2018

Eu queria acabar logo esse texto. Eu o queria pronto assim que pensado. O porquê? Não sei ao certo. Escrever é vencer barreiras, fazer o bicho que sou e as minhas ideias de gente virarem palavras. Estas que não servem, exceto como infinita tentativa de chegar lá onde eu possa ser compreendido – primeiro por mim mesmo e depois por quem estiver do outro lado. Não chego, ninguém chega lá… talvez lá seja a morte. Pois, caso eu pudesse me compreender e fazer fronteiras protegidas dos contornos que as palavras são para a mancha que é a realidade, o que seriam as palavras dai em diante? Jaulas? Então sepulturas para cada porção minha, e a realidade estaria em exposição em um zoológico ou em um museu de história natural (em lâminas de vidros e caixas vidradas). As palavras, já não mais liberdades possíveis, doravante pesariam. Me deixando caido no chão com os olhos fixos em um céu pintado em que nada mais pode acontecer. O que eu faria com a completude ? Além de me desesperar por já não poder amar nada?… pois só amo, por minhas palavras contornarem os vazios da minha existência. Ora chego em algum lugar, ora fico à deriva, ora abro a geladeira e não quero nada. Fome por tédio. Não é comida o quero devorar… Eu quem sou devorado pelas horas implacáveis e não sei o que fazer… Ainda que às vezes saiba, tantas vezes não quero… Ora quero morrer um pouco e ser puro sonho, ora passo a noite em vigília querendo ver o futuro chegar resolvido e em outras noites me escondo nos labirintos de nossa cama. Me escondo de alguma coisa. Uma coisa. Tantas. Todas nenhuma.

Pra além da dificuldade de escrever, do prazer doloroso parecido com uma coceira que fere mas é impossível de deixar de lado; ou da paranoia constritora que faz as palavras roedores e tudo sufoca. Há outra coisa. Porque escrever em alguns momentos oportunos pode ser leve e prazeroso como deslizar por caminhos em águas mansas. Então, o que me faz querer esse texto já pronto, mesmo antes de começado, é: a ordem do dia. A ordem dos dias de hoje: faça logo isso, para fazer logo outra coisa e outra coisa e outra coisa… “Nem vi o dia passar” … Isso.. Isso de viver rápido e ocupado e ter de chegar em algum lugar e logo… Isso é uma merda! Mas, vez ou outra eu sou mosca.

Quando chove

12 de janeiro de 2017

 

Quando chove, quando chove assim e só assim,

O som do mundo é submerso, vira fundo.

O silêncio que me falta chega, mudo, como deve ser…

Como sempre deve ser. E é assim que se fala de tudo

Aquilo que não podemos ter: o oportuno.

Vamos fechar os olhos, que a vigília de nada serve,

Vigiar o invisível é vigiar o motorista estando

No bando de trás. É querer pesar o leve,

Querer capturar a sua curvatura sensível

Ao toque de minha pele fugaz.

Dorme que eu guardo teus olhos fechados,

Esse bicho disforme a nos rondar é sombra.

É palavra engasgada que há de se dissolver,

Abra tua boca, pois flores em palavra

Desencadeada hão de vencer.

Sobre os 33

1 de junho de 2016

Publicado no Facebook (26/05/16)

Não sou muito de escrever no facebook, reservo meus pensamentos à minha parceira, amigos e amigas, e vez ou outra quando tenho ânimo escrevo em meu blog; entre muitos dos motivos de não colocar textos no facebook é devido à velocidade em que as coisas evoluem, um assunto atinge seu ápice e perde sua visibilidade rapidamente, em uma espécie de efeito de onda no litoral; e eu não tenho elaboração rápida. Outro motivo é a espetacularização em torno de certos assuntos muito sérios; veja bem, não me refiro ao movimento das pessoas de comentarem o que pensam ou partilharem conteúdos que representem o que pensam, isso é fundamental para trocarmos ideias e informações; meu incômodo surge quando percebo uma certa autopromoção, um engajamento narcísico, em que supostamente valeria muito mais posar, sustentar uma imagem, do que um discurso e posicionamento político. No entanto, é uma força quase gravitacional nos dias de hoje o engajamento imagético, a propaganda de si, fazendo da vida, com sua banalidade, uma sessão da revista caras.

Felizmente há muitas pessoas que falam de outro lugar, engajadas em seu pensamento e coerência, preocupadas em de fato questionar, descontruir, debater e espalhar informações em meio a tantos flashs.

Dito isso, vou ao que interessa.

Entre tantos absurdos noticiados nos últimos dias, um destacou-se: uma jovem de 17 anos foi abusada, estuprada, por 30 homens… TRINTA! Eu fiquei sem entender, parecia algo fictício… “jovem estuprada por 30 homens”… algo fictício ao estilo Lars von Trier. No entanto, trata-se de uma ficção, não a mesma do cinema, mas, aquela que faz a intermediação do sujeito com a realidade. Não temos acesso direto à realidade, usamos um biombo fantástico forjado por discursos e ideologias; sendo mais direto, a ideologia faz a realidade, costurando suas fibras em uma trama (não plenamente, há algo que escapa, mas, não vou tratar disso agora).

Então, o que faz um homem violentar uma mulher? Podemos nos pautar na influência ideológica de uma cultural machista para buscarmos explicações, no entanto isto não basta, pois vamos nos deparar com motivações particulares e pessoais do sujeito também; ou seja, o sujeito apropria-se dos discursos ao seu redor, significa sua realidade e age. Porém, quando nos chega a informação que uma jovem foi drogada à sua revelia, estuprada por 30 homens, e, como se a bestialidade humana não bastasse, foram divulgadas fotos e vídeos na internet acompanhadas de frases debochadas; quando nos deparamos com isso, devemos perguntar o que permitiu que uma realidade como essa fosse constituída. Que tipos de ideologias, discursos, circulam por aí autorizando homens a forjar uma realidade cruel como esta? O ato em si, drogar e estuprar uma jovem, já é horrendo, no entanto, ganha um tom abjeto maior ao ser espetacularizado por meio de vídeo e fotos seguidas de legendas “bem-humoradas”. A jovem é alçada ao lugar de objeto, não só um objeto a ser usado ao bel-prazer dos agressores, mas também, um objeto que após ser usado passa a ser um dejeto a ser ridiculizado. Certamente, na cabeça desses machos não se tratava de uma pessoa, talvez se tratava de uma “Putinha que marcou, e aí rodou”, afinal “Quem mandou não se cuidar?” . Para mim este ato tem, por uma perspectiva, similaridade discursiva ao de queimar moradores de rua, “mendigos” . Ou seja, eu me autorizo a humilhar, espancar e por fim atear fogo a um homem que dorme em um banco de praça porque ele é menos gente do que eu, ou pior, ele não é gente. Deste modo, o outro é colocado no patamar de diferente e por isso, por não responder a minha imagem e semelhança, é considerado inferior, é considerado humano de segunda classe, ou pior, é um mero objeto em que o que eu considero deste, o que eu imagino, equivale a realidade; logo eu me autorizo a fazer o que bem entender com o objeto. Este processo se dá dentro de uma realidade forjada por uma ideologia que autoriza um ato como este, pautando-se em construções imaginárias, por exemplo, do que é ser um homem, o que um homem faz, pensa e como lida com o outro que não é homem, que não é macho.

Um homem não pode ser um homem na condição de ser um macho, a saber, aquele que é agressivo, potente – potência esta que gravita em torno do próprio pênis e da dominação da fêmea a despeito de seu desejo, porque, “ela quer, no fundo ela gosta”; potência permeada pela necessidade de provar para outros machos que se é macho através de troféus sexuais chancelados por relatos, vídeos, fotos etc…

O machismo está na esteira de discursos que tentam oferecer soluções grotescas para o contato do sujeito, especificamente o homem, com a diferença (não apenas entre um homem e uma mulher, mas, também entre homens); o machismo oferece uma espécie de “pacote” identitário imaginário e raso do que é ser um homem; a saber, neste contexto discursivo, um homem é um macho…

O tempo passou… e se o mundo nunca foi preto e branco, não será mais aceita a forçação de barra para que “pareça ser”; agora é evidenciado que há muitos tons e que é urgente sairmos do binarismo, pois, neste terreno o ódio cresce em pequenos atos, banalizados, até estourar no horror de uma realidade grotesca, mais, grotesca que um filme de Lars von Trier. Precisamos falar disso com os amigos, precisamos falar com os meninos e apontar outras referências.

Daffodil

9 de novembro de 2015

Vamos morrer, é esse o plano: vamos morrer pra seguir gozando meu amor…

Vamos gozar a qualquer preço e que só a dor física seja o limite, e, que o limite seja um mero obstáculo anatômico; afinal, somos livres. Não somos?

Sejamos objetos reluzentes com cheiro de novo, e assim que nos depararmos com a lógica de flor de cereja dos nossos dias tão atuais, basta ser outro objeto para outro consumidor. Vamos nos enfiar nos buracos dos outros e vamos ser enfiados nos nossos buracos, pois se a plenitude é o nosso ideal e a plenitude é estar preenchido, não vamos ficar de fora do grande plano de vivermos pra sempre; porque pelo plástico a morte não se interessa.

E vamos amar… Livre! Leve! Com pouca bagagem, amor de baixa caloria. Mas, você se lembra como é isso? Porque ser feliz é estar hipnotizado pelo reflexo na água e o amante é apenas um eco que segue sempre muito de fundo para que seja ouvido.

Afinal, estamos mortos…

Ao final, somos uma versão mais limpa e moderna, não mais de origem animal, somos de tecido sintético; não somos?

Eu queria chorar, porém, ter tesão é mais coerente.

E

Afinal eles não sabem o que é uma mulher pra mim.

Você não sabe o que é uma mulher pra mim.

Ela não sabe o que é uma mulher pra mim.

Eu não sou uma mulher.

Um vazio central, desejo disforme…

Desculpe a decepção… Acontece.

Eu carrego na mão minha condição:

Só.

18 de julho de 2015

Goste você ou não, o fato é que os Estados Unidos são ainda hoje, e sabe-se lá até quando, uma potência mundial em vários aspectos: na economia, politica e cultura. Isso é obvio, não é? Pois é, contudo, o obvio tende a ser esquecido com facilidade; inclusive, cabe um pergunta: Será que no dia a dia conseguimos nos dar conta do quanto a influência estadunidense é consistente e o quanto ela está, por assim dizer, “naturalizada” e absorvida à nossa cultura? Eu responderia que não, ao menos não de imediato. No cotidiano, quando você escreve um texto no Word, posta algo no Facebook usando seu Iphone, calça seu Converse All Star e calça Jeans, entra em seu carro Fiesta, coloca pra tocar Janis Joplin, passa em um posto Shell para abastecer e comprar uma Coca-Cola ou uma Budweiser; você está pensando “Nossa! Como minha cultura é influenciada por outra”? Seja sincero… Não, né.

Certamente, essa consciência de sermos influenciados pela cultura estadunidense, bem como tantas outras, surge feito uma epifania (causando espanto, pelo menos para mim) ou quando você se coloca a refletir ou discutir com alguém sobre. Do contrário, na rotina, temos pouca percepção de até onde estamos influenciados por culturas estrangeiras. Alguém mais engajado, talvez até radical, em um discurso de esquerda anti Estados Unidos, poderá dizer “Eu tenho consciência sim, inclusive evito usar e consumir produtos que tenham a marca dos Estados Unidos, não sou a favor desta cultura imperialista”. A questão não é ser a favor ou ser um “alienado”, a questão é que muitas das ferramentas que lançamos mãos nos nossos afazeres e lazer tem origem estadunidense, e nos recusarmos a usar não é tão simples, essa recusa muitas vezes pode implicar a exclusão de laços sociais; o que nos é muito caro, afinal somos animais sociais, precisamos do outro, de estar junto e nos sentir reconhecidos de alguma forma pelos nossos “pares”. Esta influência, transforma de tal maneira o cotidiano e, por conseguinte, as relações entre as pessoas e entre as pessoas e os objetos que se paga o preço por um lado ou por outro.

Escutei certa vez de uma colega de trabalho, que ela estava se sentindo excluída do seu círculo de amizade, pois não usava o WhatsApp, sendo assim, não ficava sabendo dos convites para reuniões e festas; ao indagar seus amigos, estes disseram a ela que se esqueciam de sua não presença no grupo do aplicativo. Por fim, ela consentiu e passou a usar o aplicativo.

Sim, é um exemplo por demais banal e até insignificante perante de outras consequências muitas mais nefastas da atuação predatória dos Estados Unidos. No entanto, quero apontar o quanto estamos cingidos, desde do prosaico até a calamidade social, por influências tão arraigadas e nem sempre tão facilmente destacáveis; seja por não consciência ou pela importância social (muitas vezes questionável, claro) que passou a ter.

Enfim, é preciso dizer que não ter consciência não se trata, apenas, de não ter isso ou aquilo na consciência (“em mente”) no momento, mas, não raro, implica que se a história não é contata deixa de existir; logo o imaginário trata de fazer suas amarrações e colocar certos elementos culturais na ordem do dogma. Contudo, quando contada, a história é versada nos interesses de quem fala. E quem fala mais alto, afinal?

Uma leve digressão agora. É importante dizer que o animal humano se torna humano por ser apresentado e inserido na cultura, na linguagem, por um outro; o animal humano se aliena ao discurso do Outro (sendo considerado o outro aquele que cuida do bebê e ao mesmo tempo a linguagem, o simbólico que é apresentada por este que fala com o bebê) em seu processo constitutivo. Ou seja, grosso modo – pois não quero enveredar pra um lacanismo ou ir a fundo nas questões do inconsciente – pela perspectiva da constituição subjetiva, não é possível capturar totalmente, ter consciência plena, da ação do discurso da cultura em nós mesmos; podemos trabalhar em nos tornarmos menos alienados a este discurso do Outro, no entanto, sempre terá, por assim dizer, “pontos cegos”, não há como “curar-se” do inconsciente. Não nos damos conta de tudo que fazemos, desejamos, pensamos e falamos; às vezes, estamos surdos para a própria fala, que se mistura com a do Outro. Quem nunca se perguntou “Será que isso que eu persigo, desejo, é desejo meu?”

Voltando. Não sou muito de radicalismo. Não penso o mundo como um campo de batalha entre o bem e o mal; não acho possível riscar uma linha no chão e dizer “Time do mal de um lado! Time do bem pro outro!”. E por isso, penso ser importante separar alguns elementos de outros; por exemplo, os Estados Unidos tem uma política mundial predatória e, não raro, perversa – É certo que sobram pessoas que saberiam falar melhor desta política do que eu, mas meu intuito não é ir por ai – como podemos perceber no famoso discurso de libertar países das garras de ditadores, simplesmente por acreditaram que a liberdade deva ser levada para todos no mundo, é na realidade um verniz para o que realmente está por trás, entre outras coisas, expandir seu domínio e poder em regiões estratégicas. Por outro lado, não se pode negar, assim como em todos os países, Os Estados Unidos possuem uma cultura riquíssima: filmes, literatura, música e etc. (Não, não estou falando de filmes da Disney, Marley & Eu e Lil Wayne… Tão pouco simpatizo com o pedantismo de alguns de que a cultura erudita ou a com raízes acadêmicas é a “verdadeira cultura”. Na cultura pop há muita coisa valiosa e interessante).

Ou seja, tendo em mente tudo isso que tento apontar no meu texto, em poucas palavras, a consistente influência cultural estadunidense no ocidente, para o bem ou para mal, que considero um grande avanço social e da liberdade a legalização do casamento gay. Pois, escuto como se o governo dissesse para aqueles conservadores que pautam seus argumentos no ódio e mitos da vida “normal”:

“Você pode não concordar, no entanto, não há nada de errado e muito menos ilícito em duas pessoas casarem, independente de sua orientação sexual; não só é legítimo como, a partir de agora, é legal”.

E ainda podemos perceber, quem sabe, um outro alcance (uma inversão), o que então era considerado por muitos um crime, uma aberração, passa a ser legítimo e legal, e, logo, a postura intolerante, conservadora, não rara calcada no ódio, é que passa a ser ilegítima e não legal. Historicamente falando, há pouco tempo na Inglaterra (outro país de grande influência) a homossexualidade era considerada crime; você pode conferir algumas das consequências desta postura legal no excelente filme O Jogo da Imitação (de 2014 do diretor Morten Tyldum).

Alguns podem considerar uma grande besteira o fato de um país tornar legal o casamento de pessoas do mesmo sexo, lançando mão do argumento de que o casamento é uma instituição falida, anacrônica e símbolo de uma cultura baseada no patriarcado… Ai a pessoa dormiu no ponto. Cada sujeito, por mais que esteja inserido em uma cultura cristã e patriarca, pode, apropriar-se a sua maneira dos ritos desta cultura (desde que se tenha abertura pra isso, claro; e aí é importante um passo como este da legalização do casamento gay); e segundo somo seres sociais e permeados pela linguagem e uma miríade de simbolismos que permeiam e constituem a realidade (não temos acesso direto a realidade, ela é atravessada por nossa fantasia, pelo simbólico, imaginário e, para além disso, é o Real); logo, em outras palavras, é importantíssimo o ritos sociais para nos localizarmos no mundo e sermos reconhecidos. O ser humano busca reconhecimento de diversas maneiras, e liberdade é constituída dentro do possível, considerando-se, de preferência, o impossível; dessa maneira, só vejo com bons olhos uma lei que permita uma maior abertura para se exercer a liberdade: Quer casar? Vá em frente. Não quer Ok!

Falo mais da liberdade depois…

Quinta-feira 12/03 ou Flor de plástico

23 de junho de 2015

Fiquei mudo, mergulhado em um mar branco.

Esforço-me por derramar uma gota de cor que seja, por colocar minha cabeça para fora e respirar. No entanto, tudo é horizonte, não há margem. Minha cabeça pesa, meus pulmões são de ferro; uma máquina enferrujada. Não respiro, tão pouco morro afogado. Fico em meio a um processo. Nada acontece… É um círculo evoluindo em eterna espiral; a existência fechada em uma flor de plástico.

Essa é a parte do sonho que ninguém propaga, as pessoas saem da sala quando percebem a transição da melodia em distorção. É quando o bebê começa a chorar e a feder…. Não tem colo a que devolver.

Eu sento na cama. Não virei uma barata gigante ou qualquer coisa do gênero, conquanto me sinto diferente. Irreconhecivelmente familiar, no espelho a impressão de já ter me visto em algum lugar. Escuto da janela: o dia já começou, sem mim e seguirá, senão pela minha, ás vezes, pálida insistência…

Eu estou acordado, ou algo assim, há umas duas horas ou 20 minutos, imerso em um mar branco. Não sei se posso chamar de sonho, já que o tempo todo pude escutar os carros arranhando minhas janelas. Acho que é uma espécie de sala de espera em que o corpo fica quando ele acorda, mas a consciência perde a hora ou está em um atoleiro… No caso, branco. Um atoleiro branco.

Entro no chuveiro.

Começo a pensar nas baleias, no tamanho do bicho… Eu não sou nada no reino animal. Há certo tempo venho me espantando com a “realidade” de certas coisas; por exemplo, o deserto. Vi em um programa de TV que haviam encontrado esqueletos de baleia no deserto. Isso quer dizer que o deserto já foi mar; é lógico, não é? A minha primeira reação foi pensar “Quem colocou essas baleias no deserto?”. Percebo que meus cinco anos não acabaram e que ainda acredito em Deus.

Baleias no deserto… Como algo tão gigantesco e certo como o mar veio um dia a secar? Eu não sou nada na realidade. (Na verdade eu não lembro agora se lavei a cabeça e se lavei duas vezes o mesmo pé) Eu não estou ali na realidade, percebo meu desencontro aqui na minha cabeça ruim; a realidade é uma barata que percebo no box do chuveiro. Do espanto à perplexidade “Que merda é essa?!” esmago com o fundo do tubo de shampoo. Fico ali até me livrar da mancha marrom… “Será que desce pelo ralo?”. Desceu. Voltei aqui.

Minha vontade é de ficar no chuveiro… Ir ficando, até a indolência matinal passar, a vida parar, o tempo estancar e assim poder olhar de fora a linha invisível, torta, desfiada e sem objetivo, senão, seguir seguindo. A vida: existência biológica vazia, em que se enrola tantos fios arcaicos, esquecidos, juntamente com novos e se faz de uma ponta a trama do cobertor e de outra a mortalha. Esse meio é um mistério tão perturbador quanto o começo e o fim.

O manto do velho cobre o bebê.

O tempo passou e segue. Eu pensei, antes de agora, que a maturidade chegaria e então eu seria um homem… Bom, é claro, eu fui aprendendo alguns truques e macetes sobre mim mesmo. Deixei até a barba para convencer, mais a minha imagem nos olhos do outro do que aos outros. Nos meus cadastros consta, sexo: masculino. Chamam-me de senhor e nasci em 1987 (segundo o Wikipédia, foi um ano comum do século XX que começou em uma quinta-feira). Ou seja, sou um cidadão responsável por mim mesmo, posso beber bebidas alcoólicas, dirigir e ser preso. O mercado me dá “dicas” do que vestir e usar. “Produtos masculinos” …. Certo… Grande merda.

O sol ainda volta toda manhã e o tempo é gordo, implacável e paciente; nos devora pelas beiras e nos drena em mililitros, feito uma aranha translucida e diligente. Não é nada pessoal, ele só está de passagem.

Chega de banho… Já são 7 horas da manhã.

A barata me chama.IMG_9494

É um malabarismo de objetos…

23 de janeiro de 2015

O sofrimento não é atual, muito menos o mal-estar existencial que habita o homem. Entretanto, cada cultura e época apresentam soluções para lidar com as limitações humanas e sua existência trágica; trágica no viés da tragédia grega, em que, por mais habilidoso e potente que o herói possa ser, há um destino implacável e inevitável.

O destino implacável e inevitável do humano, bem como o de todo ser vivo, é a morte. O limite intransponível do real, a presença incompreensível que ronda a realidade e tudo de que lançamos mão para cingi-la.  Há também um aspecto trágico que se relaciona àquilo que age em nós sem que nos demos conta.

As soluções oferecidas são sustentadas por ideais de uma época, por discursos que buscam localizar o homem no mundo, que dizem de sua maneira de se realizar e se relacionar com os outros e consigo mesmo. O sofrimento é irmão do ideal, pois se o ideal é, por um lado, capaz de orientar a vida do sujeito, por outro é o que pode esmaga-lo, lhe cortando a cabeça ou os pés.

A tristeza e a melancolia acompanham o caminho do humano na cultura. Filósofos, poetas, bem como artistas das mais diversas expressões já tentaram dar forma, sentido, lógica, ou simplesmente tentaram fazer algo com essa faceta árida da vida. Talvez um salto do ameaçador nada para um possível vazio. Deus e o paraíso pós-morte já dominaram o sentido da existência. A existência já foi colocada como insustentavelmente leve ou vazia em si, estando assim carregada de possibilidades. Enfim, não me parece que todas essas ‘soluções’ tenham sido esquecidas, porém estão longe de dominar discursivamente os dias de hoje.

Deus ainda tem forças, porém ele surge cada vez mais como onipotente ao invés de potente. Lacan nos aponta que a onipotência só surge quando a potencia já não pode. Mas Deus é mais um objeto entre tantos oferecidos hoje pelo discurso capitalista, junto com os estilos de vida, as drogas – lícitas, ilícitas, farmacêuticas ou recreativas –, os especialistas, o maniqueísmo político, as academias de musculação e suas aulas de body-alguma coisa. As porções são agigantadas por apenas alguns reais a mais, afinal de contas, compensa, não é? Certamente algo se tenta compensar. O que é? A falta estrutural do sujeito, ou melhor, o vazio supostamente deixado por algo que deveria estar aqui e que se supôs um dia presente?mão

A melancolia aponta para o insuportável, para a recusa em aceitar o que supostamente foi perdido, que é um vazio insistente a saltar diante do sujeito a existir. A tristeza denuncia a falha, o encontro com o limite, com ‘aquilo que não vai bem’. E a depressão? A tristeza entendida como doentia indica para qual expressão que o mal-estar assume? A depressão, natural dos manuais de classificação, assinala, por um lado, a falha de um ideal de vida plena, adaptada e equilibrada, por outro, sua existência enquanto diagnóstico faz renovar a ilusão de solução final para o mal-estar que existir implica.

Caso não seja possível desfazer-se do mal-estar, então trata-se de uma doença crônica com a qual é preciso fazer ‘manutenções’ ao longo da vida. Bom, ao menos o sujeito tem uma explicação para suas agruras. Para o misterioso ‘o que sou?’, ele não precisaria de se preocupar… porque de agora em diante, ele é um depressivo, não é?

Temos grãos, sementes, ervas e plantas que prometem curar o coração, a cabeça, a alma e o corpo que envelhece e morre. Aparelhos que fazem muito e que facilitam a vida, tornando-a mais ‘real’ e significativa meramente por os ter.

O google responde, os especialistas explicam, e as celebridades mostram ser possível a vida que não é só vivida, mas celebrada ostensivamente, comprimidos que prometem aumentar o seu rendimento ou te desligar. Tudo para que você seja equilibrado, correto, ‘do bem’ e consciente.

Há muitas respostas calando as perguntas. Não raro pacientes chegam recheados de classificações e receitas, sofrendo ou nada podendo sentir, pois sua vida tem muito sentido; sentido alienado a um Outro, que o sujeito não abre mão de escutar e olhar para apostar em sua própria palavra, experiência e desejo.

Os especialistas de algo sabem, entretanto não sabem da existência, senão da própria. A relação com os objetos e com o outro, e muito do que ambos vêm a oferecer, pode ajudar o humano a lidar com suas limitações, desejos, mal-estar e tantas outras formas que o vazio existencial toma, entretanto, é comum que aquilo concebido como saída torne-se claustro.

Se a resposta do objeto acalma, é também potencialmente material para a angústia, esta que é o sinal de que se está abrindo mão do próprio desejo. Para aplacar a falta, o sujeito penhora o desejo em troca de respostas, do objeto oferecido pelo Outro, supostamente aplacador da falta. Mas se não há falta, não há também espaço para o vazio e para o desejo, e, se não há desejo, como se vive? Como um objeto ou um morto-vivo, ou melhor, um vivo-morto.

Enquanto se estiver vivo não haverá solução final para o mal-estar. O desejo indica que algo falta – por isso é tão conflitante e virtualmente problemático. O que há é o lidar, as manobras, os manejos, o contornar a falta. Ainda que recorrendo ao Outro e aos objetos, quem melhor para saber da própria vida, os prazeres e dores, que o próprio sujeito?

que insistem em não se acomodar plenamente na mão.

*imagem do artista Francês Dran

Salmoura

5 de julho de 2014

Fazer algo em um mundo em que tudo passou a ser tão importante, deixa um gosto de salmoura; é o gosto excessivo do patético. Gosto que seca a saliva. Se tudo e todos são importantes, então, nada ou muito pouco é de fato importante… Relevante.

Todos estão falando, para escutar, senão, a própria voz; a ladainha contínua, sem intervalo, não abre espaço para voz do outro.

Quem é o outro?

Ser poeta… É melhor ser em um silêncio e reserva calculada. Há muitos porcos comendo a própria merda pensando – querendo acreditar – ser a mais bela, e única!, pérola com sabor de trufa… Qual o sentido de lançar versos em um lindo chiqueiro onde chafurdam intelectuais de manual? Não quero ser um estampador feito Romero Britto. Tão pouco quero ser ridicularizado e drenado feito fizeram com Clarice e tantos outros menores, maiores… Tantos outros.

Não quero servir de autorização para felicidade narcótica e grandiosamente vazia; muito menos de suporte para majestades cultas do reino das vaidades e arrogância dissimuladas em títulos de inteligência e humildade em verniz.

A poesia, a arte de maneira geral, virou título de álbum de turista em redes sociais.

Pergunto-me se a arte algum dia ocupou algum lugar sem servir de anteparo narcísico. Isso é muito delicado e complicado… Sou muito cínico e vaidoso para responder.

Vermelho

10 de fevereiro de 2014

Deixe-me soprar o inferno para dentro dos seus ouvidos,

Fazê-lo arder com minhas palavras.

Tenho um demônio onde as ideias são formadas,

Ele quer rodar em seu pescoço percorrer todo o corpo,

Então, invadir.

Deflagrar a inquietação de respirar no vazio, pisar em vidros

E resquícios!

Encontrar o rastilho dessa existência, encontrar o silêncio da angústia…

Nessa noite quente esfriar o peito ao seu lado, pulsar os músculos até

Morrer um pouco, espirando rapidamente, expirar nos segundos…

Desejar o olhar obscuro do infinito ao seu lado… Distante demais…

O peso da carne puxa a alma afogando no ar… Deixe-me soprar…

Não morre, quero acendê-la com o demônio que ronda minha língua!