Enquanto vocês pulam da cama para salvar o planeta com a reciclagem, sendo sustentáveis; eu me pergunto: “Já são seis e dez?”. Me arrasto pra fora da cama, pensando quantas coisas não poderei salvar e o quanto sou insustentável. Eu penso, isso é insuportável, e pior, percebo o quanto certos pensamentos e comportamentos são de um estranho em mim.
Talvez seja falta de conhecer a realidade da periferia, a realidade dos trabalhadores rurais, dos doentes terminais, dos terminais de ônibus do centro da cidade. Ou quem sabe eu sou mimado demais, nunca precisei fazer “nada”; meus pais me dão “tudo”. Minha avó dizia, quando eu não queria comer: “Você tinha que passar fome uma semana no deserto”.
Eu penso… será que, trabalhadores, pobres, moribundos, famintos e tantos que sofrem de uma “realidade”, não sentem um certo vazio? Aquele incômodo esquecido nos primeiros goles, de qualquer gozo e alívio, mas que volta logo depois, em segundos, ou horas, ou dias… volta, volta, sim, volta. Será de não existir fantasmas na casa de nenhum deles? É possível não existir uma verdade periférica aos olhos, feito o vulto de algo ao lado, muito próximo, em que não se vê o que é, entretanto, sabe-se que está ali.
É falta de ter perdido mais pra dar valor? Perder o quê? Os anéis vão, ficam os dedos. Os dedos também vão, sabe-se lá quando, como, pra onde, mas, vão.
E sobre esse sentimento de que a qualquer momento, qualquer situação pode se transformar em uma comédia, em uma tragédia. Ou pior, quando se vê o mundo humano, o tempo todo, como uma comédia de mau gosto, trágica. O que a neurociência me diz? A psicanálise? Os nutricionistas? Os professores de educação física? A psicologia moderna? O Globo repórter ou SBT repórter? A Super interessante? A Claudia? O socialismo? A UNE?
É falta de serotonina, ou qualquer outro neurotransmissor. É porque eu durmo pouco e acordo cedo; ou é minha alimentação mal balanceada; talvez seja minha maneira de amar errado; ou meu amor por coisas fúteis. Já sei é falta de auto-estima. Eu não penso positivo. “Se você não cansa seu corpo com exercícios físicos, como pode dormir de noite?”.
Eu me pergunto: “É sério?”; “Como é que é?”. Eu penso que tudo é mentira, não digo só as ciências e ideologias, mas, tudo que é humano. Tudo que é humano é tão provisório, tão arranjado e falsificado. Não suportamos a verdade, a verdade sobre nós mesmos, sobre nosso pai, mãe, irmã, amigos e mestres. Do mistério do começo do mundo ao fim dele, até o “porquê” de nunca ter dito algo ao meu pai sobre certo dia que aconteceu certa coisa, é muito pesado e rarefeito.
Como se faz quando se quer ser adulto aos 20 e poucos anos, enquanto os homens de meia idade agem como moleques e as mulheres se vestem de menininhas. Eu sempre tropeço na minha adolescência. E tudo indica que nunca se pode parar de tropeçar na própria estupidez também.
13 13UTC outubro 13UTC 2010 às 10:49 pm |
É um texto duro.
Um texto puramente visceral, cru.
Nao se pode parar, nem de caminhar rumo a o indefinido da vida, nem contra o tumultuado do ser. Ser dói. Ser exige um dispendio de energia que
parece nunca termos, uma construcao enorme, porém vaga.
De toda a dificuldade e a angustia que causam os intermináveis pensamentos, restam pequenas lacunas de nada. É o nada fazendo a ligação entre o mundo e voce, e dele nao se está livre.
Mas ainda entre o nada, o mundo, e vc, existem prazeres, existem instantes de pura habilidade corporal e uma liberdade insustentável.
Me parece entao que se parássemos de tropeçar em referencias sobre nós mesmos, nos perderíamos de fato.
A estupidez é apenas um detalhe.
23 23UTC novembro 23UTC 2010 às 2:59 pm |
otimo texto!