23 23UTC Novembro 23UTC 2009 por Dorado

 

Estão em minha cabeça tantas informações e idéias, vindas de muitas fontes e que chegaram arrancando as costuras de muitos trajes e trajetos ao longo de uma semana. Algo teve um ressoar maior, a hipocrisia. Se ressoou é porque encontrou lugar propício.Bom, tá muito bonito, mas, eu não quero fazer poema agora,para fazer isso eu dou exclusividade aos meu cadernos.

Esse blog, eu criei pra jogar idéias sentidas, muitas vezes, como malditas, por mim mesmo… Deixa pra lá, pra outro dia. É melhor eu começar logo meu texto, pois, em minha cabeça idéia é que nem hostilidade em mesa de natal, escapa sem querer… Querendo.

Dos conjuntos de idéias expressadas por diversas pessoas ao longo da semana passada até hoje, pude perceber a constância da hipocrisia. Enquanto manobra do discurso e temática. Percebi como venho pensando sobre isso há muito tempo e por algum motivo não escrevi até hoje sobre.  Chega de ficar fiando, devaneio é muito bom, mas, pode paralisar.

                Eu acho impressionante como algumas pessoas dizem (ou repetem) que a racionalidade é uma qualidade inerente ao ser humano e responsável por nos dar estatuto de “animal racional”. Pra mim isso soa como frase de aula de ciências ministrada por uma professora tão “amorosa” e “atenciosa” do ensino fundamental. Eu não estou dizendo que a racionalidade não nos faz de certa maneira diferente de outros animais. Porém, eu acredito na nossa capacidade simbólica sofisticadíssima e, não na racionalidade, como algo que de fato, nos pode proporcionar uma condição humana. Até porque é patente pra mim a luta do ser humano ao longo de sua existência no planeta terra pela instauração da racionalidade em varias instâncias de sua vida. A história e qualquer mito, lenda, conto, romance e o escambau constatam isso em algum momento. Assista televisão, veja dois amigos discutirem uma teoria… ou  jogo… e assim, assista a tão natural racionalidade agir.

                Sim, eu acredito, o ser humano possui a capacidade pra desenvolver a racionalidade, assim como o potencial para ignorá-la com tranqüilidade. E a hipocrisia cresce muito bem em meio a toda essa merda ideacional; merda incapaz de adubar qualquer coisa senão a hipocrisia.

[Digressão] eu percebo as coisas assim: as pessoas dizem, confirmam e brigam , sem saber ao certo o motivo de estarem travando batalhas por certos conjuntos de idéias. E fazem isso, eu acho segundo meu achismo, por não poderem tematizar no literal o que se passa em seu carretel interno. Então, pegam emprestado alguma cadeia de idéias e usam de matéria prima para descarregar as tensões. As palavras não dão conta de escrever o texto ditado pelo nosso intimo, às vezes não tão íntimo, mas, íntimo e que nos passa a impressão de lugar comum. Então, em meio dessa dificuldade da palavra, entra nossa capacidade simbólica.

Voltando, bom, eu escrevi muito, entretanto, sobre a hipocrisia propriamente… necas. Ela nos pega de várias maneiras. Temos uma paixão por ela. Quando eu penso nela, eu penso em muitas coisas, e, uma das coisas que está me incomodando, fazendo-me pensar, é a postura de muitas pessoas em relação à psicanálise.

 É dito por ai que a psicanálise não deve criar novos guetos, pois, ela viveu durante longo tempo em um. Isso parece ser escolhido a dedo para ser deixado de lado por muitos psicanalistas e estudantes, esses se mostram não imunes a estupidez. E eu acabo de ser mais cretino ainda, por acreditar na conversa, de velho bêbado de boteco de esquina, de que entrar em contato com certas idéias fariam de alguma maneira (mágica) a estupidez sumir… não, isso não acontece… é uma condição humana a paixão cega por algo.

A postura de alguns psicanalistas e aspirantes da psicanálise vem me incomodando já há algum tempo. Um clubinho boçal, formado por lacanianos. Eu gosto da teoria lacaniana e estou começando a ter contato agora com a mesma. Lacan cada vez mais soa como um gênio para mim. No entanto, infelizmente, junto com a teoria vieram alguns zumbis.

Eu já fui à algumas palestras, convenções  e etc.  Alguns coisas me deixaram estarrecido quando fui à um congresso de Psicanálise no Hospital.  Primeiramente eu não entendo o porquê de uma pessoa levantar-se para fazer uma pergunta e antes de qualquer articulação acerca da mesma exibir sua biografia e seu currículo. Dizendo: Meu nome é tal e sou formado em tal universidade e sou chefe do departamento tal e participo de grupos e discussão sobre blá blá e gosto de andar pela praia e gosto de animais e sonho em ter um pônei com a cara do Lacan tatuado no flanco esquerdo e do Freud no flanco direito.

Segundo coisa. Tive palestras incríveis, as quais mesmo com minhas limitações teóricas me proporcionaram perspectivas muito interessantes e diferentes sobre a psicanálise. Entretanto, não faltaram blás blás bizarros que só me deram sono. Sono provocado pelo dialeto fechado de muitos Lacanianos que serviram de canção de nina das mais chatas, daquelas cuja monotonia só faz o sujeito querer dormir pra evitar aquela chatice zumbizóide.

Sei não…pra mim a psicanálise surge com tons muito bem arranjados de arte, ciência e mitologia. Onde o sujeito enriquece a teoria e a prática com sua face e não vomitando frases e falando um dialeto muito restrito e pedante, o qual da um ar de reunião da high society na casa dos Epantchín de Dostoievski.

Só quero esclarecer que não generalizo essa impressão sobre os Lacanianos, conheço uns e outros bons, muito bons. Minha crítica é para hipocrisia indigesta que ronda muitas coisas no dia-a-dia e passa pela psicanálise. Hipocrisia que quer sustentar uma bandeira de revolução e abertura no mundo humano, enquanto o que se faz é repetir para enovelar criando guetos. O humano tende a gozar na criação de guetos, e, tanto faz se se está dentro ou fora de um.  

Vamos cantar a miséria pra não acostumar.   

 

 

 

Primeiro Ensaio

20 20UTC Outubro 20UTC 2009 por Dorado

casa de Freud em LondresQual é a importância da psicanálise na contemporaneidade? Essa Foi a pergunta da professora na aula de ontem. Bom, é uma pergunta que me assusta um pouco; não por sentir-me sem bagagem para responder, mas, talvez por passar em minha cabeça tantas possibilidades e meios de pensar em uma resposta que fico desnorteado. Surge aquela sensação de atordoamento; eu sempre me senti perdido em relação as minhas idéias. São tantas e assim fico sem saber o que pensar e falar primeiro.

Quando digo ter bagagem pra responder tal pergunta não me refiro à bagagem teórica, mas sim, a alguns anos de divã como analisando. E essa bagagem pode ser pensada enquanto uma mochila; já que devo estar em análise mais ou menos dois anos (sou péssimo em contar o tempo). Mesmo assim,  com uma bagagem pequena, acredito ser capaz de falar uma coisa ou outra sobre a importância da tal da psicanálise na contemporaneidade. Até porque eu acredito que a psicanálise é apreendida através do desenvolvimento do pensar; e eu gosto de desenvolver linhas de raciocínio, mesmo que depois sejam tidos como lixo subjetivo, parte do lixo reciclamos. Ou seja, eu acho importante pensar e desenvolver o novelo, e, não ficar repetido termos e frases pouco dominadas pela minha subjetividade. Eu trabalho com o que tenho e o que posso assimilar e assim vou abrindo mais espaço a partir desse movimento.  Não me sinto confortável cuspindo idéias prontas não digeridas.

Bom, eu enrolei demais, não é? A psicanálise na contemporaneidade se faz relevante para mim a partir do momento que a mesma oferece possibilidades de se dinamitar certos mausoléus erigidos pouco a pouco ao longo da vida; mausoléus feitos de certezas e que podem nos resguardar.  E também, não posso e não consigo esquecer que somos seres sem garantias em um mundo provedor de inúmeras promessas certeiras de paz no horizonte, amor no palito e gozo como estatuto. E me parece que tais promessas têm errado a maça ou as maças da tal arvore proibida dos humanos.  

Então, pra mim a psicanálise, ou melhor, o processo analítico devolve ao sujeito algo estritamente seu, que sempre o foi, embora o sujeito não houvesse até então respondido com voz ativa, por possivelmente estar anestesiado pelas próprias certezas  – o motivo é particular em cada pessoa. Isso que é devolvido é a vida; vida no sentido de um mito individual redigido pelo sujeito, e então através do processo analítico, tendo sua autoria assinada por si mesmo.